A primeira vez que identifiquei um sintoma da minha doença autoimune não dei muita bola. Estava no trabalho, sentada na minha mesa, olhando uma planilha ou power point qualquer. Uma colega sentou na minha frente para conversar sobre um assunto X e de repente comentou: seu olho tá vermelho. Ela queria dizer uma das minhas pálpebras. E na verdade era rosa. Parecia uma irritação qualquer, uma mancha daquelas que aparece e depois some, sem causar grandes transtornos. Então nem dei bola, mas conforme as coisas avançaram depois eu lembrei desse dia. Foi a primeira vez que notei meu heliotropo, ou pálpebra rosácea.
Algumas semanas depois a mancha continuava lá. "Pode ser alergia a esmalte", mais de uma pessoa me disse. Não parei de pintar a unha e não achei lugar na minha agenda para visitar uma dermatologista. O ritmo estava pesado no trabalho e não poderia me dar o luxo. Além do mais estava tão cansada, que só queria fazer o que tinha que ser feito e ir para casa dormir.
Algo estava estranho. O que eu sentia não era um cansaço comum. Meu braço estava pesado, sentia dificuldade em subir escadas, andar distancias curtas. Sentia uma dor similar a depois de fazer exercício intenso, e continuava sedentária. Um dia fui ao shopping e ao experimentar um sapato não consegui levantar o pé do chão sem ajuda das mãos. Aí notei que algo estava realmente errado.
Comecei a procurar no google "dores musculares" e suas possíveis causas. Em algum momento, adicionei às palavras chaves as manchas no rosto também. Acabava caindo sempre em sites de reumatologia. Só que...para tudo!..eu tinha apenas 29 anos e na minha cabeça a reumatologia era uma especialidade que praticamente só cuidava de idosos. Eu estava pensando em ir no ortopedista mesmo, cansaço/dor nas pernas e braços, fazia sentido. Mas ao mesmo tempo nada estava quebrado.
Aí vem o momento da vergonha. Eu tenho tendência a ter esse sentimento, "nossa será que é fescura minha? Que bobagem ir ao médico por causa de uma bobeirinha dessa!". Hoje sei que nossa capacidade de perceber pequenas alterações no corpo em que vivemos é fenomenal. Afinal, ninguém te conhece como você mesmo! Repare em cada mudança. E não hesite em buscar ajuda quando sentir que algo não está certo.
Por sorte, eu trabalho com médicos, e tive a oportunidade de conversar com uma colega ginecologista a respeito. Contei os meus sintomas e ela confirmou minhas suspeitas: poderia sim ser uma doença reumatológica. Diferentemente de muitas pessoas que passam de médico em médico, especialidade em especialidade, sem conseguir um diagnóstico preciso, eu me dirigi à pessoa certa para identificar minha dermatomiosite.
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