Quando você é diagnosticado com uma doença crônica, o primeiro sentimento é de impotência. Ainda mais numa doença autoimune, para mim era surreal saber meu corpo estava se " revoltando " contra mim, e que o tratamento era brecar meu sistema imunológico. É engraçado isso, porque quando comentava com algumas pessoas sobre o perfil da minha doença, eu ouvia " Toma X, melhora o sistema imunológico...". Não quero melhorar! Quero enfraquecer! Ele já tá muito forte e totalmente descontrolado, dá um tempo!!!
Enfim, de cara o tratamento que costuma ser recomendado é o corticoide. Ah, o corticoide! Amado e odiado. Com certeza altas doses desse poderoso hormônio vão fazer você se sentir muito melhor. Ele tem um efeito imunossupressor e antiflamatório potente, é barato, já bastante conhecido, portanto a recomendação número 1 para muitas doenças autoimunes, entre outra infinidades de patologias. Acontece que o tratamento prolongado com esse medicamento traz alguns efeitos colaterais indesejáveis, como alterações de humor, insônia, aumento de peso, acne, aumento de pêlos, aumento de colesterol, aumento do risco de diabetes, catarata...Enfim, a lista é extensa. Quanto maior a dose e o tempo de tratamento, mais chance de você ter que lidar com alguns efeitos negativos.
No meu caso o corticoide, primeira linha de tratamento, foi combinado com o metotrexato. Essa é uma das primeiras drogas oncológicas da história - medicamento velho, velho, velho, mas super relevante também. Tomar MTX é um saco porque dá muita náusea e enjoo. É algo surreal, só de ver a caixa do remédio eu passava mal. A dose é semanal e normalmente são vários comprimidos de uma vez, já que são vendidos em comprimidos com doses pequenas. Tome com água. Uma vez, tomei com suco de uva e fiquei uns 6 meses sem nem poder sentir o cheiro....argh.
O início do tratamento é aquela guerra para diminuir os sintomas, aumenta-se a dose, diminui-se a dose, ajusta-se a dose. O acompanhamento médico é constante e os exames de sangue também. Perdi muito peso no início da doença, mas rapidamente ganhei tudo de volta e logo mais estava parecendo uma bolacha traquina. Efeito indesejado do corticóide, que incha bastante, além de aumentar o apetite monstruosamente e distribuir a gordura de um modo surreal.
| Minha cara com e sem corticóide !!! :( |
Depois de mais um menos 10 meses nesse tratamento tive um grande susto. Após uma viagem de trabalho aos EUA sentia uma forte dor na perna. Achei que era cãimbra. Cheguei a comer banana. Mas nada da dor passar. Uma noite, depois de um dia inteiro com a panturrilha latejando, cheguei a sonhar que amputava a perna - acho que foi o meu inconsciente querendo se livrar da dor. Tomei vergonha na cara e fui ao pronto socorro. Foi diagosticado uma TVP - trombose venosa profunda, por um ortopedista muito antenado - ainda bem que ele desconfiou. O uso de corticóides aumenta o risco de trombose, assim como pílula anticoncepcional e vôos longos. Dessa maneira acredito que esse mix maluco, além do fato de estar fisicamente abalada, contribuiu para o episódio. Trombose é grave, caso evolua para uma embolia pulmonar pode ser até fatal- que susto!
Nesse momento minha médica já vinha falando da possibilidade de tentarmos um medicamento biológico, já que sou jovem e o corticóide a longo termo poderia ser prejudicial. A TVP foi a gota final para meu divórcio com o corticóide, após isso queria muito tentar algo experimental. Mas a introdução ao meu novo tratamento conto em um próximo post...